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SNC para PME: o que precisa de saber sobre normalização contabilística

A normalização contabilística é um tema fundamental para as Pequenas e Médias Empresas (PME) em Portugal. O Sistema de Normalização Contabilística (SNC) é o conjunto de regras que define como as empresas devem registar, organizar e apresentar a sua informação financeira. Se é empresário ou responsável financeiro de uma PME, compreender o SNC é essencial para manter a conformidade legal e tomar decisões mais informadas sobre o seu negócio.

Neste artigo, vamos esclarecer os conceitos fundamentais do SNC, explicar as suas aplicações práticas e ajudá-lo a entender como estas normas afectam a sua empresa.

O que é o Sistema de Normalização Contabilística (SNC)?

O SNC é um conjunto de princípios, normas e procedimentos contabilísticos que regulam a forma como as empresas em Portugal devem registar, avaliar, apresentar e divulgar a sua informação financeira. Foi implementado em 2010, substituindo o Plano Oficial de Contas (POC), e alinha-se com os padrões internacionais de contabilidade.

O SNC foi concebido com dois objectivos principais:

  • Harmonização internacional: facilitar a comparação de informação financeira entre empresas de diferentes países
  • Modernização contabilística: aplicar metodologias contabilísticas mais rigorosas e relevantes para a tomada de decisão

Para as PME, existe uma versão específica do SNC, designada SNC para PME, que simplifica algumas das regras mais complexas da versão completa, mantendo a qualidade e fiabilidade da informação financeira.

SNC Completo vs. SNC para PME: qual a diferença?

Uma das questões mais frequentes entre empresários é compreender qual a versão aplicável à sua empresa. A resposta depende de critérios específicos.

Critério SNC Completo SNC para PME
Dimensão da empresa Empresas maiores que não cumprem critérios de PME Empresas que cumprem critérios de PME (conforme Decreto-Lei nº 372/2007)
Requisitos de aplicação Total do balanço > 1.500.000€ ou Volume de negócios > 3.000.000€ Máximo de 2 de: Total balanço 4.000.000€, Volume negócios 8.000.000€, Pessoal médio 50 pessoas
Complexidade das normas Todas as 28 normas aplicáveis sem simplificações Aplicação simplificada com isenções de certas disposições
Divulgações obrigatórias Mais extensas e detalhadas Menos exigentes, focadas em informação essencial
Entidades públicas Aplicável conforme normativo específico Não aplicável

Nota importante: A maioria das PME em Portugal aplica o SNC para PME. Para determinar qual é a versão correcta para a sua empresa, verifique os critérios acima referentes aos últimos três exercícios consecutivos.

Quando começou a ser obrigatório o SNC?

O SNC entrou em vigor em 1 de Janeiro de 2010 e é obrigatório para todas as entidades contabilísticas, com poucas excepções (como certos microempreendedores).

Se a sua empresa iniciou actividade após esta data, deve ter estado sempre sujeita ao SNC. Se iniciou antes, foi necessário fazer uma transição da contabilidade anterior (POC) para o novo sistema.

Os Pilares Fundamentais do SNC

O SNC assenta em alguns princípios contabilísticos fundamentais que são essenciais compreender:

1. Princípio da Continuidade

Assume-se que a empresa continuará em funcionamento no futuro previsível. Este princípio é importante porque afecta a forma como os activos são avaliados e apresentados nas demonstrações financeiras.

2. Princípio da Substância sobre a Forma

As transacções devem ser contabilizadas com base na sua realidade económica, independentemente da sua forma legal. Por exemplo, uma operação de leasing é contabilizada como uma aquisição, mesmo que juridicamente o bem não seja propriedade da empresa.

3. Princípio da Acuidade (ou Comparabilidade)

As demonstrações financeiras devem ser preparadas de forma consistente de período para período, permitindo comparações históricas fiáveis.

4. Princípio da Materialidade

Apenas as informações significativas devem ser divulgadas. Valores muito pequenos podem ser agregados sem afectar a compreensão da situação financeira.

5. Princípio da Relevância e Fiabilidade

A informação financeira deve ser relevante para a tomada de decisão e fiável, ou seja, apresentada de forma neutra, completa e verificável.

As Principais Normas do SNC para PME

O SNC para PME é estruturado em torno de 28 normas contabilísticas. As mais relevantes para a generalidade das PME incluem:

  1. NCP 1 – Bases para a Apresentação de Demonstrações Financeiras: define a estrutura e formato dos relatórios financeiros
  2. NCP 2 – Demonstrações Financeiras: especifica o conteúdo do balanço, conta de resultados, cash flow e alterações no capital próprio
  3. NCP 3 – Inventários: regula como os stocks devem ser avaliados (FIFO, média ponderada, etc.)
  4. NCP 4 – Investimentos em Associadas e Empreendimentos Conjuntos: aplicável a empresas com participações
  5. NCP 5 – Activos Fixos Tangíveis: regula o registo e depreciação de equipamento, instalações e propriedades
  6. NCP 6 – Activos Intangíveis: governa o tratamento contabilístico de software, marcas registadas e similares
  7. NCP 7 – Imparidades: define como registar quando um activo perde valor
  8. NCP 8 – Prazos e Juros: estabelece como contabilizar operações financeiras com juros
  9. NCP 9 – Passivos Financeiros e Instrumentos de Cobertura: para empresas com dívidas e financiamentos
  10. NCP 10 – Transacções em Moeda Estrangeira: aplicável a empresas com operações internacionais

Exemplo Prático: Contabilização de um Equipamento sob o SNC

Para ilustrar como o SNC funciona na prática, consideremos um exemplo concreto:

A empresa "XYZ, Lda." adquire um torno industrial no valor de 50.000€ (sem IVA) em Março de 2026. A vida útil estimada é de 10 anos, com valor residual nulo.

Contabilização inicial (Março 2026):

Débito: Activos Fixos Tangíveis – Máquinas e Equipamentos – 50.000€
Crédito: Caixa/Banco – 50.000€

Depreciação mensal (conforme NCP 5):

Valor anual a depreciar: 50.000€ ÷ 10 anos = 5.000€/ano
Depreciação mensal: 5.000€ ÷ 12 meses = 416,67€/mês

Cada mês, a partir de Março, registaria:

Débito: Custos com Depreciações – 416,67€
Crédito: Depreciações Acumuladas (Activo) – 416,67€

No final do ano (Dezembro 2026), a empresa teria contabilizado 10 meses de depreciação (Março-Dezembro), totalizando 4.166,70€.

Vantagem do SNC: Este tratamento padronizado permite que qualquer investidor, banco ou interessado compreenda imediatamente qual o custo real do equipamento e quanto da sua vida útil já foi consumido. Isto melhora significativamente a tomada de decisão.

Conformidade com Legislação Portuguesa

É importante notar que o SNC não substitui a legislação fiscal portuguesa, mas funciona em paralelo. As empresas devem estar conformes tanto com o SNC quanto com os seguintes regimes:

Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas (CIRC)

Embora a contabilidade seja organizada segundo o SNC, o cálculo do lucro tributável pelo CIRC pode exigir ajustamentos às normas contabilísticas. Por exemplo, certas despesas comerciais podem ser contabilisticamente válidas mas não aceites para fins fiscais.

Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA)

O SNC não regula o tratamento do IVA; para isso, existe legislação específica (CIVA). Contudo, a contabilidade deve permitir demonstrar a conformidade com ambos os sistemas.

Impostos sobre o Rendimento de Pessoas Singulares (CIRS)

Se o proprietário é uma pessoa singular, aplicam-se também regras adicionais relacionadas com o CIRS.

Recomendação: A contabilidade SNC e a conformidade fiscal são dois aspectos complementares. Uma empresa bem contabilizada segundo o SNC consegue facilmente cumprir as obrigações fiscais, desde que se mantenha atenta aos ajustamentos específicos exigidos pela legislação tributária portuguesa.

Vantagens do SNC para as PME

Adoptando o SNC, as PME beneficiam de várias vantagens significativas:

  • Melhor decisão empresarial: informação financeira mais fiável e comparável facilita a gestão da empresa
  • Acesso ao crédito: bancos e financiadores preferem empresas com contas bem organizadas segundo normas internacionais
  • Transparência com stakeholders: fornecedores, clientes e sócios conseguem compreender melhor a saúde financeira
  • Preparação para crescimento: facilita transições para empresas maiores ou potenciais fusões e aquisições
  • Redução de erros: as normas claras minimizam interpretações incorrectas
  • Facilitação de auditorias: quer internas quer externas, as auditorias são mais simples quando há conformidade com padrões conhecidos

Desafios Comuns na Implementação do SNC para PME

Apesar das vantagens, algumas PME enfrentam desafios na implementação:

Complexidade Inicial

Mesmo o SNC para PME, simplificado, requer conhecimento técnico. Muitos empresários sentem-se inicialmente sobrecarregados pela quantidade de normas e regulamentos.

Custos de Conformidade

A implementação correcta do SNC exige muitas vezes investimento em software de contabilidade adequado, formação de colaboradores e, frequentemente, recurso a consultores especializados.

Transição de Dados Históricos

Para empresas que operavam com sistemas anteriores, a migração para SNC pode ser complexa, especialmente se os registos históricos não estão bem organizados.

Actualização Contínua

O SNC não é estático; há actualizações e interpretações novas da parte da entidade reguladora (Autoridade Tributária). Manter-se informado exige dedicação.

Demonstrações Financeiras Obrigatórias

Segundo o SNC, toda a PME deve preparar e divulgar as seguintes demonstrações financeiras:

1. Balanço

Apresenta a posição financeira em determinada data (geralmente 31 de Dezembro). Inclui Activo (Não Corrente e Corrente), Passivo (Não Corrente e Corrente) e Capital Próprio.

2. Demonstração de Resultados

Mostra a rentabilidade da empresa durante um período. Apresenta Rendimentos menos Gastos para chegar ao Resultado Líquido.

3. Demonstração de Alterações no Capital Próprio

Evidencia as mudanças no capital e reservas durante o período.

4. Demonstração de Fluxos de Caixa

Mostra como dinheiro entrou e saiu da empresa, segregado por actividades operacionais, de investimento e de financiamento.

5. No

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